Voar é um desejo que começa em criança!

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Especial de Domingo

Carnaval no Brasil!
Muita diversão e fantasia.
Para a publicação de hoje, pensamos num contraponto.
Em dias de superexposição, que tal um exemplo de discrição?
Para ler em alguma hora sossegada, se isto for possível numa época destas...
Não custa tentar!
Bom Carnaval, bom domingo!

Capitão Kopp, o curitibano que os partisanos salvaram
No começo da tarde de 7 de março de 1945, o cabo Eronides da Cruz, municiador de caças P-47, e seus colegas contavam os aviões que retornavam de uma missão no Norte da Itália – era um hábito de quem ficava em terra. Deveriam voltar oito, mas apenas sete desceram. Faltava o capitão Theobaldo Kopp, um curitibano que havia decolado como líder da Esquadrilha Vermelha. “Toda vez que isso acontecia, um pedaço da gente ficava do outro lado. Apesar de os oficiais não ficarem hospedados junto com os praças, o grupo era uma família”, diz o veterano, referindo-se ao 1º Grupo de Aviação de Caça, a unidade dos aviadores brasileiros na Segunda Guerra Mundial.

Mas dessa vez a ansiedade foi menor. Logo que o pessoal de terra percebia a falta de um piloto, tentava conseguir alguma informação dos aviadores que haviam retornado. “Eles nos diziam rapidamente o que tinha acontecido”, lembra Cruz. E, quando Kopp caiu, abatido por artilharia antiaérea alemã, seus colegas fizeram algo até então proibido, mas que depois do episódio com Kopp se tornaria obrigatório: ficaram rondando o local, esperando que o piloto curitibano encontrasse refúgio seguro. Assim, Cruz e os outros praças souberam que Kopp não estava morto, nem tinha sido capturado; em vez disso, fora encontrado por partisanos, italianos antifascistas que colaboravam com os Aliados, mesmo em território ainda dominado por Hitler. “O que aconteceria depois não tínhamos como adivinhar, mas saber que ele tinha encontrado refúgio nos tranquilizou um pouco”, conta o veterano.

Em depoimento ao também piloto – e hoje brigadeiro – Rui Moreira Lima, Kopp fez uma autocrítica. O local onde ele foi derrubado era um “parque de diversões” frequente dos brasileiros, que já tinham destruído a maior parte dos depósitos, e justamente por isso os alemães haviam reforçado a defesa. Além da antiaérea, a autoconfiança exagerada jogou contra o curitibano. “Com a continuidade das missões, o piloto vai esquecendo a segurança. Acha que nada lhe pode acontecer”, afirmou Kopp, morto em 1996, no livro Senta a Pua!

A aventura de Kopp após a queda ainda duraria um mês e meio, passando de casa em casa, disfarçado de camponês. Em pelo menos uma ocasião esteve perto de ser descoberto pelos alemães. Só no fim de abril Kopp conseguiu voltar à base do 1º GAvCa, em Pisa. A guerra continuava, mas ele não voou mais depois do retorno. No grupo, era conhecido pelo domínio completo do avião. “Seus filmes, tirados durante os bombardeios picados, eram os mais perfeitos. Quando enquadrava o alvo, tudo parava”, conta o brigadeiro Rui Moreira Lima em seu livro.

Após a guerra, o introvertido curitibano morou em Minas Gerais, onde chegou a ser presidente da Telemig. Mas foi no Rio de Janeiro que ele encontrou Silvio Terzio, o chefe dos partisanos que o abrigaram após sua queda. O reencontro, porém, foi breve: Kopp levou o italiano para jantar na casa dos sogros, e de lá Silvio sumiu para nunca mais ser encontrado novamente. “Não temos certeza se ele conseguiu mais algum contato, mas sabemos que encontrou alguns companheiros quando esteve na Itália em 1983”, diz Eduardo Kopp Vannuzzi, neto do piloto.

Eduardo acrescenta que o avô era muito reservado quanto à sua participação na guerra. “Minha mãe, Astrid, conta que conheceu a história de meu avô apenas quando o Senta a Pua! foi lançado”, afirma. Ela só entendeu plenamente o silêncio do pai ao ver uma cena do O Resgate do Soldado Ryan, quando o personagem do título visita um cemitério militar e se afasta da família. “Para a maioria destes homens, suas histórias são muito particulares, pois são de um sofrimento muito profundo que tentaram esquecer pelo resto da vida”, finaliza Eduardo.

Artigo originalmente publicado no jornal Gazeta do Povo , de Curitiba (PR), em 11 OUT 2008.

Fonte: Sentando a Pua!