Voar é um desejo que começa em criança!

domingo, 18 de outubro de 2015

Especial de Domingo

Brindando a Semana da Asa - idealizada pelo aviador Godofredo Vidal em 1935 e viabilizada pela Comissão de Turismo Aéreo do Touring Club do Brasil - relembramos, hoje, a criação do Aeroclube do Brasil, instituição pioneira que tanto contribuiu para o fortalecimento da aviação nacional e que atualmente enfrenta mais um grande desafio.
Boa leitura.
Bom domingo!

SEMANA DA ASA - 2015
 

AEROCLUBE DO BRASIL

Fundado em 14 de outubro de 1911 por um grupo de idealistas, o “AEROCLUBE BRASILEIRO” foi verdadeiramente o berço da aviação brasileira. Foi o primeiro a ser fundado no Brasil e um dos primeiros no mundo. A Assembleia de Constituição foi realizada nas dependências do jornal “A NOITE”, gentilmente cedidas por seu diretor IRINEU MARINHO, grande incentivador do Aeroclube. Na ata de fundação, constam os nomes de civis e militares ilustres, políticos, professores, homens de negócios, todos irmanados pelo mesmo ideal: “fomentar no Brasil o desenvolvimento da novel e futurosa arte da aviação”. Porém o mais notável é o fato de que sua primeira diretoria teve como presidente de honra o sócio fundador ALBERTO SANTOS DUMONT, sendo o Almirante JOSÉ CARLOS DE CARVALHO Diretor Presidente. VICTORINO DE OLIVEIRA, redator do jornal “A NOITE”, foi seu primeiro Diretor Secretário. O atual aeródromo militar dos Afonsos nasceu do que foi o primeiro Campo de Aviação do Aeroclube, construído com muito esforço e perseverança pela primeira Diretoria e onde funcionou a “Escola Brasileira de Aviação”. Os primeiros aviões adquiridos pelo Aeroclube – com recursos arrecadados em subscrição pública – foram logo em seguida cedidos ao Exército para servirem pela primeira vez no Brasil como instrumento de observação aérea na histórica “GUERRA DO CONTESTADO” em Santa Catarina, onde perdeu a vida o Ten. RICARDO KIRK, engenheiro do Exército e Diretor da Escola de Aviação do Aeroclube. KIRK foi a primeira vítima da aviação brasileira em operações militares e é hoje o patrono da Aviação do Exército. Após a morte de RICARDO KIRK e com a demorada recuperação dos aviões emprestados ao Exército, somente em 1916 pode ser reiniciado o Curso de Pilotagem, agora sob a direção do Tenente BENTO RIBEIRO FILHO.
Infelizmente a primeira turma – composta de sete civis e dois militares – não chegou a brevetar-se, pois às vésperas dos exames os dois únicos componentes da banca examinadora – Tenentes BENTO RIBEIRO e VIRGINIUS DELAMARE, não puderam comparecer por terem sido mobilizados, em virtude da declaração de guerra do Brasil ao Império Alemão em outubro de 1917, pelo afundamento do navio cargueiro brasileiro “Panamá”. Em junho de 1918, EDU CHAVES é designado Diretor Técnico do Aeroclube e sugere a transferência dos aviões dos Afonsos para Guapira, onde funcionaria a “Seção Paulista do Aeroclube Brasileiro”. No ano seguinte foi efetivada a filiação do Aeroclube junto à FAI (Fédération Aéronautique Internationale), cujo processo de filiação fora iniciado em 1913 pelo Tenente RICARDO KIRK e interrompido durante o recesso provocado pela Guerra 1914/18. Como representante da FAI, passou o Aeroclube a exercer basicamente a função oficial examinadora dos pilotos formados no Brasil, concedendo-lhes os respectivos brevês. O brevê Número 1 foi dado ao piloto RAUL VIEIRA DE MELLO, Primeiro Tenente do Exército, em 21/08/1919. Neste ano o Ministro General Caetano de Faria informava ao Presidente do Aeroclube que o Exército iria precisar das instalações do Campo dos Afonsos para instalar sua própria Escola de Aviação Militar. Sem Campo de aviação no Rio de Janeiro, o Aeroclube agora sob a Presidência do Deputado MAURÍCIO DE LACERDA, dedicou-se a promover, estimular e a colaborar na criação de Escolas de Aviação em todo o Brasil, credenciando Delegados em vários estados. Em 1931, quando já existiam várias escolas de pilotagem no Brasil e a aviação comercial já era uma realidade, foi criado o Departamento de Aeronáutica Civil no Ministério de Viação e Obras Públicas, que passou a controlar e regulamentar as atividades aéreas civis.
Esvaziava-se assim a função normativa do Aeroclube e reduzia-se a importância da atividade de representação da FAI, já que os brevês concedidos pelo DAC tornavam desnecessários os da FAI, pelo menos para voar dentro do Brasil A crise financeira inviabilizava a manutenção do Aeroclube Brasileiro. Entregou-se então a direção do Aeroclube a uma Comissão composta dos senhores PAULO VIANNA, CEZAR GRILLO e ANTÔNIO GUEDEZ MUNIZ. Em 16 de março de 1932, foi realizada uma Assembléia Geral Extraordinária, homologando os poderes para o Triunvirato. Nessa mesma AssemblEia foi aprovada a proposta do então Major GUEDEZ MUNIZ mudando o nome da Entidade para AEROCLUBE DO BRASIL. Os terrenos de Manguinhos foram definitivamente eleitos pela comissão para o preparo do novo campo de aviação do Aeroclube. A ocupação do terreno se deu por consentimento tácito das autoridades federais e municipais, sem documento formal.

A causa era justa e contava com a simpatia de todas as autoridades, principalmente do Presidente GETÚLIO VARGAS. O instituto OSWALDO CRUZ permitiu que fosse desbastado um pequeno relevo em seus terrenos e PAULO VIANNA tomou a si a obra de aterro do manguezal, sempre com a participação de seus companheiros de comissão. Em 1936 o Triunvirato deu por terminada sua missão. Os primeiros aviões pousaram. Manguinhos era uma realidade. Renascia o Campo de Aviação dos sonhos dos fundadores do Aeroclube Brasileiro, especialmente de RICARDO KIRK. Lá estava agora como Presidente o Almirante VIRGINIUS DELAMARE, que em 1917, então tenente, tentava com BENTO RIBEIRO fazer voar a Escola Nacional de Aviação, nos Afonsos. Foi graças à inauguração de Manguinhos com o prestígio da presença do então presidente GETULIO VARGAS, que tomou impulso a “SEMANA DA ASA”, idealizada pelo aviador GODOFREDO VIDAL em 1935 e viabilizada pela Comissão de Turismo Aéreo do Touring Club do Brasil. A ideia era fomentar o “orgulho aeronáutico brasileiro”, numa época em que desenvolviam-se as primeiras iniciativas para produzir aeronaves em série no país. A data foi escolhida em alusão ao dia do aviador, comemorado em 23 de outubro que, por sua vez, remete ao primeiro voo de um aparelho mais pesado que o ar, o 14 Bis de SANTOS DUMONT. Desde sua criação, a SEMANA DA ASA colaborou sensivelmente para estimular o setor aeronáutico brasileiro. Foi uma festiva “Semanda da Asa” em Manguinhos, que praticamente consolidou a ideia do então Ministro da Aeronáutica SALGADO FILHO de criar a Campanha Nacional de Aviação, contando com o poderoso e entusiástico apoio do grande jornalista ASSIS CHATEAUBRIAND e que resultou na criação de quase três centenas de Aeroclubes por todo o Brasil. De Manguinhos saiu a grande maioria dos instrutores que viabilizaram a implantação das Escolas de Pilotagem dos novos Aeroclubes, então criados como resultado da CAMPANHA NACIONAL DE AVIAÇÃO. Paralelamente às atividades de formação dos instrutores, o Aeroclube não descuidou das suas funções institucionais, mantendo a Escola de Piloto de Recreio e Desporto (hoje piloto privado), incentivando as atividades aerodesportivas. 
Em Manguinhos foi realizado o primeiro Campeonato Brasileiro de Acrobacia. Ainda na década de 40 foram criados os Departamentos de Paraquedismo e de Aeromodelismo, que contaram com dezenas de participantes. O Departamento de Paraquedismo foi organizado e dirigido pelo saudoso CHARLES ASTOR. O Departamenro de Aeromodelismo, por MARIO SAMPAIO. No final da década de 50 surgiram problemas administrativos muito sérios e o aeródromo de Manguinhos foi interditado sob a alegação de interferência com o tráfego aéreo do Aeroporto Internacional do Galeão e do Aeroporto Santos Dumont. Sem poder utilizar as instalações de Manguinhos, por 10 anos o Aeroclube funcionou numa pequena sala cedida por um dos sócios e se dedicou a pugnar pelas novas instalações previstas para o mesmo local em que no final da década de 20 existia o Campo de Latecoere, em Jacarepaguá, e que deveriam compensar a tomada do campo de Manguinhos. 

Em 1967, lutando contra o tempo para conseguir o novo Campo de Aviação, evitou-se que o AEROCLUBE DO BRASIL fosse transformado em “Aeroclube da Guanabara” por força do DL número 205, de 27/02/1967, obtendo aprovação no Congresso Nacional da Lei 5.404, de março de 1968, alterando o artigo 5 e criando o parágrafo 2 para reconhecer o pioneirismo histórico do Aeroclube do Brasil:
 "O Aeroclube do Brasil, fundado em 14 de outubro de 1911, a primeira entidade da aviação brasileira com existência local, por seu pioneirismo e pela implantação da mentalidade aeronáutica a que deu curso, é considerada integrante das tradições nacionais na área da aeronáutica”.  

REABERTURA EM JACAREPAGUÁ
Finalmente em 1972 – dez anos sem voar – o Aeroclube reiniciou suas atividades no Aeródromo de Jacarepaguá, administrado então pela ARSA, contando apenas com um velho “Aeronca Sedan” (PP-DZW), comprado pelo Aeroclube em 1950, e mais três “FOKKER” (T21 e T22), desativados pela Academia da Força Aérea e cedidos pelo DAC para a formação de pilotos. PAULO VIANNA, um dos principais responsáveis pela construção de Manguinhos, agora aos 80 anos, novamente enfrenta o desafio de recomeçar tudo de novo em Jacarepaguá. Acostumado a duras lutas, lá estava ele voando novamente os velhos FOKKER e formando novos pilotos. Morreu poucos meses depois acreditando nas promessas das novas instalações que seriam construídas para repor as de Manguinhos. Após o fechamento de Manguinhos nos anos 60, o Aeroclube praticamente sem receita financeira suficiente, teve sua filiação à Fédération Aéronautique Internationale suspensa. Porém, em 1978, o então Presidente do Aeroclube, hoje sócio Benemérito, CLÁUDIO VIANNA, contando com a ajuda do antigo sócio PIERRE CLOSTERMANN, piloto francês, ÁS da RAF durante a Segunda Guerra e também formado no ACB em Manguinhos, conseguiu a aprovação da FAI para restabelecer de imediato a filiação do Aeroclube como “membro ativo”, dando assim cobertura a todas as modalidades de desporto aéreo praticados no Brasil. O Aeroclube dispõe em Jacarepaguá de uma sede social e administrativa, inaugurada em 1982, denominada “Mal. IVO BORGES” como homenagem ao segundo Presidente da era Manguinhos, responsável pela compra do conjunto de salas na rua Álvaro Alvim, na Cinelândia, cuja receira de aluguel permitiu a sobrevivência do Aeroclube nos dez anos sem as rendas de Manguinhos. 
Dispõe também de dois Hangares: “PAULO VIANNA”, inaugurado em 1989, e “RICARDO KIRK”, inaugurado em 1993. Todos estes imóveis pertencem a INFRAERO, entregues ao Aeroclube em regime de comodato. Em resumo, o AEROCLUBE DO BRASIL é a instituição de ensino aeronáutico mais antiga do país e o segundo aeroclube mais antigo do mundo. Tem seu legado anterior até mesmo a Força Aérea Brasileira e a Força Aero Naval da Marinha do Brasil, assim sendo, traduz em sua história o celeiro da aviação Brasileira tendo em seus quadros o registro de figuras relevantes da história do país. O AEROCLUBE DO BRASIL prioriza, como um dos mais importantes projetos, o resgate da memória histórica do Aeroclube. Trabalha também para dinamizar e modernizar suas atividades. 

2015
Neste outubro de 2015 a Justiça no Rio de Janeiro determinou que o interventor do AEROCLUBE DO BRASIL, comandante HAMILTON LOURENÇO, realize dentro de 60 dias a eleição dos quadros para a entidade “Retomar a sua autonomia o mais rápido possível'', cita a sentença. O centenário ACB - fundado em 14/10/1911, tendo como Presidente de Honra o sócio ALBERTO SANTOS DUMONT, um dos pioneiros da aviação no mundo - formou milhares de pilotos atuantes nas aéreas nacionais e mercado privado. Enquanto isso, continua na Justiça Federal o imbróglio criado pela Infraero, que pediu o despejo do ACB e de volta dois hangares que o Aeroclube usa como sede desde a década de 70 no Aeroporto de Jacarepaguá, na Zona Oeste. A Infraero quer negociar o local para o mercado privado e alocar seu pessoal.

Fontes:
Resumo Histórico do Aeroclube do Brasil - Autoria do Sócio Benemérito J. Bonifácio, economista, Piloto de Recreio e Desporto, brevetado em Manguinhos em 1947.

Blog Esplanada - Leandro Mazzini