Voar é um desejo que começa em criança!

domingo, 2 de abril de 2017

Especial de Domingo

Nos domingos de abril de 2017, nossas publicações brindam aos 90 anos da travessia do Oceano Atlântico pelo hidroavião Jahú, completada em 28 de abril de 1927.
Foi um feito extraordinário realizado por equipe genuinamente brasileira.
Confira hoje dois artigos de João Guilherme D'Arcádia, do jornal Comércio do Jahu.
Boa leitura.
Bom domingo!

Chiko Bronze/Comércio do Jahu

Hidroavião Jahú vive meses de "reclusão"
Texto: João Guilherme D'Arcádia
Fonte: Comércio do Jahu - 26/2/17
Hidroavião Jahú está no Museu da TAM, há dez anos, mas o local está fechado à visitação 
Museu da TAM em São Carlos completa um ano fechado; Jaú tem poucas condições de receber aeronave

Símbolo da travessia do Atlântico empreendida em 1927, o hidroavião Jahú não é visitado por ninguém há pouco mais de um ano. Em fevereiro do ano passado, o Museu da TAM em São Carlos encerrou suas atividades, privando do acesso ao público quase 100 aeronaves. Entre elas, a que transportou o aviador jauense João Ribeiro de Barros e seus três colegas de Cabo Verde ao Brasil, há 90 anos. Desde janeiro e até abril, o Comércio do Jahu publica reportagens especiais sobre o feito. O Savoia-Marchetti S.55 está em São Carlos há uma década. Antes, passou anos no Museu da Aeronáutica no Ibirapuera, em São Paulo, onde se deteriorou. Seus “restos” foram encaminhados para o Campo de Marte e depois para Carapicuíba, onde um empresário encampou sua total restauração. Só então foi cedido em comodato pela Fundação Santos Dumont, que detinha sua propriedade, ao museu da companhia aérea – reconhecido como espaço onde o Jahú ficou mais bem conservado desde então. Com o fechamento do acervo por motivos financeiros, no entanto, o hidroavião vive meses de reclusão. Apesar disso, há certo consenso de que Jaú não tem a menor condição estrutural de receber uma relíquia deste porte. O diretor do Museu Municipal José Raphael Toscano, Fábio Grossi dos Santos, afirma que a aeronave precisaria ficar em ambiente adaptado, climatizado e seguro – que, por ora, não existe. “Como entusiasta, acredito que o melhor seria que ele estivesse aqui. Mas, hoje, seria a ruína deste avião”, sinaliza. No museu, além do diversificado acervo de itens pessoais de João Ribeiro, está exposta a hélice reserva original do hidroavião, que também demanda manutenção periódica. “Espero que, no futuro, Jaú consiga abrigar esse avião.”

Projeto
O arquiteto do Departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria de Cultura e Turismo, Ricardo Luís Dal´Bó, chegou a elaborar um anteprojeto de um museu temático no antigo armazém de café na Rua Humaitá. O espaço comportaria o Jahú e outros símbolos da aviação nacional, com integração para a Praça Tancredo Neves. “Seria no mínimo honroso que o avião voltasse para cá algum dia”, menciona. O Museu da TAM foi acionado pela reportagem na última segunda-feira (20/2/17), mas a assessoria de imprensa não retornou até o fechamento desta edição.

"Jaú transformou a travessia em um feito do João Ribeiro"
Texto: João Guilherme D'Arcádia
Fonte: Comércio do Jahu - 2/4/17
Para historiador Juliano Meneghelo, versão predominante sobre a travessia é repleta de exageros Foto: Beatriz Zambonato Santos
Para historiador jauense, história oficial do voo do Jahú apagou o mérito dos demais membros da tripulação

Empreendida por quatro tripulantes há quase 90 anos, a travessia do Atlântico a bordo do hidroavião Jahú se tornou um feito personificado do piloto jauense João Ribeiro de Barros – como se os demais membros da tripulação tivessem papel secundário. Para o historiador Juliano Meneghelo, esta perspectiva se deve à dependência excessiva da narrativa oficial que se tem sobre a viagem. Desde janeiro e até o último fim de semana de abril, o Comércio do Jahu celebra os 90 anos da travessia com reportagens especiais. Meneghelo começou a estudar a travessia há dois anos, quando foi convidado para conceder uma entrevista. Após ler mais de mil relatos da época, o pesquisador chegou à conclusão de que a versão predominante que se tem sobre a viagem de Cabo Verde ao Brasil é repleta de exageros, omissões e até inconsistências históricas. Parte desta leitura se deve aos textos do deputado Hilário Freire, primeira grande referência para a construção da narrativa do Jahú. Radicado em Jaú e amigo da família, o parlamentar organizou a comitiva de recepção do voo, e proferiu inflamados discursos em que a participação do tenente João Negrão, do capitão Newton Braga e do mecânico Vasco Cinquini é secundarizada. A história oficial também tratou de apagar a figura do tenente Arthur Cunha, que participou de mais da metade da travessia, e que é tratado como traidor e desertor.

Insubordinação
Vem do livro de Newton Braga, “Azas do Jahú”, publicado no fim da década de 50, relatos consistentes da participação de cada membro da tripulação em todas as etapas do voo, inclusive de Cunha, tratado mais como um insubordinado que como um infiel. Segundo Braga, o livro estava pronto desde 1929, mas fora publicado somente nos anos 50 para não criar dissabores com os demais colegas, que já haviam morrido. No relato, a atuação dos demais componentes do voo é destacada, e muitas vezes é mais emblemática que a do próprio João Ribeiro, único piloto registrado e responsável pelo financiamento do projeto. “Houve um enfoque específico para um dos tripulantes, e o restante da tripulação acabou sendo morta historicamente”, afirma o historiador. Episódios como os quatro surtos de malária não constam em registros oficiais. A desavença com o governo brasileiro teria se dado por um incidente diplomático, provocado por uma entrevista de Cunha, e não pela insistência de João Ribeiro. Segundo Meneghelo, as diferentes versões não deslegitimam a importância do voo. No entanto, a significação na figura de um personagem não é correto do ponto de vista histórico, e conduz a opinião pública a uma série de tradições e símbolos que não condizem com o que houve de fato: um feito coletivo.