Com texto de Arnaldo Chieus, selecionado do Núcleo de Documentação Luiz Ernesto Kawall (Doc-LEK), brindamos ao ubatubense Gastão Galhardo Madeira, Pioneiro da Aviação.
Boa leitura.
Bom domingo!
Gastão Madeira: o homem que pensou antes de voar
Há personagens que pertencem à História e há outros que, embora tenham participado dela de maneira decisiva, acabam esquecidos pelas gerações seguintes. Gastão Galhardo Madeira pertence a esse segundo grupo. Natural de Ubatuba, nascido em 1869, foi advogado, inventor, pesquisador e desenvolveu, ainda no final do século XIX, estudos relacionados à dirigibilidade dos balões e aos princípios que, posteriormente, seriam fundamentais para o desenvolvimento da aeronáutica.
E justamente essa trajetória, marcada pela ousadia intelectual e pela capacidade de antecipar problemas que somente mais tarde seriam solucionados, que Cesar Rodrigues procura resgatar no livro “Voando Além do Tempo: o pensar de Gastão Madeira”.
Publicado pelo Instituto Salerno-Chieus, a obra constitui importante contribuição para a recuperação da memória cientifica e cultural de Ubatuba e, ao mesmo tempo, para uma compreensão mais ampla da participação brasileira na história da aviação. O compêndio surgiu de um trabalho de pesquisa voltado para reunir, preservar e divulgar os estudos e as ideias de Gastão Madeira, cuja importância permanecia pouco conhecida, até mesmo em sua cidade natal.
O grande mérito de Cesar Rodrigues está justamente em não tratar Gastão Madeira apenas como uma personagem biográfica. O autor procura recuperar o pensamento do inventor, suas inquietações, observações e hipóteses sobre o voo. Daí a importância do subtítulo: “o pensar de Gastão Madeira”. Mais do que narrar uma vida, o livro procura apresentar uma inteligência em movimento.
Gastão Madeira partiu de uma observação aparentemente simples: o voo dos pássaros. A natureza transformou-se, para ele, em laboratório. A observação do comportamento das aves levou-o a formular ideias sobre o voo e, particularmente, sobre a dirigibilidade dos aeróstatos. Segundo Rodrigues, já no início da década de 1890, Gastão Madeira trabalhava com a possibilidade de tornar dirigíveis os balões, numa época e que a aeronáutica ainda dava seus primeiros passos.
Essa característica confere à trajetória de Gastão Madeira uma dimensão que ultrapassa a história local. Seu pensamento insere-se naquele momento de transição em que o homem procurava vencer uma das mais antigas limitações da humanidade: a impossibilidade de dominar o voo.
Nesse sentido, o título “Voando além do tempo” é particularmente feliz. Gastão Madeira parece estar permanentemente projetando para além de sua época. Suas perguntas pertenciam ao presente, mas suas possíveis respostas apontavam para o futuro. A distância entre o seu pensamento e os recursos tecnológicos disponíveis naquele momento ajuda a explicar tanto a originalidade de suas propostas, quanto o relativo esquecimento posterior de sua contribuição.
Um dos aspectos mais interessantes recuperados pelo pesquisador aeronáutico é a relação entre as ideias de Gastão Madeira e o desenvolvimento posterior da aeronáutica. O deslocamento do centro de gravidade como recurso para a dirigibilidade dos balões, proposto pelo inventor ainda em 1890, é apresentado como uma ideia que, posteriormente, encontraria aplicações nos experimentos de Alberto Santos-Dumont.
É nesse ponto que o livro ganha relevância histórica. A história da aviação brasileira costuma concentrar-se, naturalmente, na figura de Santos-Dumont. Sem diminuir a importância do grande aviador brasileiro, a pesquisa de Cesar Rodrigues contribui para ampliar esse panorama, mostrando que a construção do conhecimento aeronáutico foi resultado de uma sucessão de experiências, estudos, hipóteses e inventos. Gastão Madeira aparece, assim, como parte de uma pré-história intelectual da aviação brasileira.
Outro aspecto digno de atenção é a preocupação de Gastão Madeira com a segurança do voo. Entre suas ideias encontra-se o chamado Aviplano, concebido para que uma aeronave pudesse realizar uma descida lenta, em caso de pane do motor. Rodrigues também destaca os estabilizadores automáticos, que podem ser vistos como uma antecipação conceitual de mecanismos posteriormente relacionados ao controle automático das aeronaves.
Essa dimensão revela um inventor preocupado não apenas com a possibilidade de voar, mas com as condições necessárias para tornar o voo mais seguro. Há, portanto, que imaginar o voo significa antever seus riscos e maneira de controlá-los.
O livro possui, ainda, uma importância documental. A obra procura valorizar, resgatar, reunir e registrar as ações e estudos de Gastão Madeira relacionados à navegação aérea desde 1890, incluindo seus estudos sobre dirigibilidade dos aeróstatos.
Esse caráter documental transforma a obra em fonte relevante para pesquisadores da história da aviação, da ciência e da tecnologia no Brasil. Mas sua importância não se restringe ao campo especializado. O livro também funciona como instrumento de preservação da memória regional. Nesse aspecto, Ubatuba ocupa lugar central. Resgatar Gastão Madeira significa reconhecer que a história de uma cidade não é constituída apenas por acontecimentos políticos ou econômicos, mas também por homens e mulheres que, em diferentes épocas, projetaram o nome do município, para além de suas fronteiras. A própria prefeitura de Ubatuba reconheceu essa dimensão ao promover, em 2019, as comemorações dos 150 anos do nascimento do inventor e ao destacar a necessidade de recuperar sua memória para as novas gerações.
Há, portanto, uma dupla viagem em “Voando além do tempo”: a primeira é a viagem de Gastão Madeira em direção ao céu; a segunda é a viagem de Cesar Rodrigues em direção ao passado, em busca do resgate cultural das ideias e ideais do inventor. E justamente nessa segunda viagem que reside uma das maiores virtudes da obra. O pesquisador não se limita a olhar para o inventor com os olhos do presente. Procura compreender suas experiências dentro das condições intelectuais de seu tempo. O resultado é o retrato de um homem movido pela curiosidade, pela observação e pela convicção de que os limites, aparentemente intransponíveis, poderiam ser vencidos pelo conhecimento.
A obra também pode ser compreendida como uma reflexão sobre o esquecimento histórico. Por que determinados inventores entram para a memória coletiva, enquanto outros permanecem nas margens? A pergunta é inevitável, quando se conhece a trajetória de Gastão Madeira. Seu nome aparece associado à história da aeronáutica brasileira e chegou a figurar, em 1927, numa placa comemorativa da travessia do Atlântico pelo hidroavião Jahú, ao lado de nomes como Bartolomeu de Gusmão, Santos-Dumont e Edu Chaves. O autor procura, portanto, corrigir uma espécie de silêncio da memória.
Mais do que uma biografia de um inventor, “Voando Além do Tempo: o pensar de Gastão Madeira” é uma obra de resgate histórico e cultural. Seu valor está em recolocar em circulação ideias que poderiam permanecer esquecidas e, sobretudo, em mostrar que a história da aviação brasileira possui personagens ainda insuficientemente conhecidos.
A obra leva também a uma reflexão entre ciência, imaginações e o território. Gastão Madeira nasceu em Ubatuba, litoral norte paulista, observou a natureza ao seu redor e, a partir dela, imaginou soluções para um dos grandes sonhos humanos. Seu pensamento nasceu em Ubatuba, mas sua ambição era universal: compreender o voo e contribuir para que o homem pudesse dominar os céus.
Por isso, Gastão Madeira pode ser visto como um pensador de fronteira: situado entre o século XIX e o século XX, entre a observações da natureza e a experiência científica, entre o sonho de voar e a tecnologia de realizar esse sonho. Cesar Rodrigues presta-lhe, assim, uma homenagem que ultrapassa a simples recuperação biográfica. Ao trazer novamente à luz seus estudos, o autor devolve a Gastão Madeira um lugar na história da ciência e da aviação brasileira.
Em última análise, “Voando Além do Tempo” é um livro sobre a capacidade humana de imaginar o futuro, antes que o futuro exista. Gastão Madeira pensou o voo quando voar ainda era uma aventura incerta. O autor recupera esse pensamento, quando muitas das ideias aeronáuticas já fazem parte do cotidiano. Entre esses dois tempos estabelece-se a verdadeira força do livro. Gastão Madeira voou com suas ideias, antes de voar com qualquer máquina. E recuperar essas ideias faz com que elas continuem voando.
Saiba mais: Biblioteca Ninja
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